sexta-feira, 20 de março de 2020

Noite Carmim - 04

A missão havia sido cumprida, as testemunhas eliminadas e os deuses ficariam satisfeitos. Satisfazer os Kamis era algo mais intrincado do que parecia, porém após dar a sentença o homem e a testemunha foram eliminados. A missão era muito importante pois era um passo a mais na direção certa, logo teríamos uma nova era sob comando do Imperador. No entanto a morte de uma inocente durante o processo de transformação não era prazerosa, era um efeito colateral desagradável porém aceitável. A dura e cruel realidade em que a necessidade de um não pode se sobressair à necessidade de muitos.

Todavia cumprir a missão não resolve todos os problemas ou cria uma nova era. Muitos passos ainda precisavam ser dados, como corrigir a rota de um grande barco, você vira o leme, muda as velas e ele ainda segue na direção anterior por inércia. Mais ações e mais tempo são necessários para corrigir o rumo seriam necessários. No entanto algo mais simples e tangível precisava acontecer. Ainda preciso desaparecer na noite clara e iluminada da cidade.


A lua brilha no céu, a chuva parou e as luminárias que haviam sido apagadas começam a ser acendidas novamente. Pessoas que estão dormindo podem continuar a dormir no bairro residencial, no entanto outras pessoas podem querer sair de suas casas ou retornar para elas. Logo os poucos transeuntes da noite deixariam os antros de prazer, seus locais de trabalho e suas casas para atender suas necessidades, seja de descanso como de trabalho. Em meio a tudo isso estava eu, sujo de sangue de um culpado e de um efeito colateral.

Agora era hora de sair do local e retornar até a pousada. Pensava no caminho, usando algumas ruas laterais para desviar de postos de soldados porém com dois elementos importantes. Primeiro precisava tirar a roupa suja de sangue, limpar meu rosto e dar uma conferida se poderia caminhar naquelas condições sem chamar muita atenção. O gosto ferroso do sangue era marcante quando havia algum machucado ou durante o corte algum ponto esguichava um jato em nossa direção. Em ambas as situações a memória do sangue faria parte de nossa vida, um aprendizado que poderia custar uma vida, a nossa ou a do alvo. O segundo ponto era como passar sem chamar a atenção sem parte da roupa superior na cidade. Mesmo um homem honrado precisaria de uma desculpa ou uma forma de cobrir seu torso. Uma desculpa simples como coco de pássaro explicaria a falta da peça de roupa, mas não queria ter que passar por isso.

Um passo veloz e firme pelas ruas laterais seria o suficiente para levar-me até a pousada. Já a roupa poderia ser descartada em algum local com lixo. No entanto o pensamento dos efeitos colaterais necessários para a construção de uma nova era não seriam abandonados. A gueixa lutou por sua vida da maneira que sabia fazer. Ela também foi honrada em não deixar se abater e lutar contra seu adversário com todas as suas armas. Agora o sacrifício de carregar este peso para realizar esta transformação seria meu, as memórias das vísceras expostas ao chão não deixariam minha mente. Porém havia felicidade em meu coração, pois estava salvando incontáveis vidas que poderiam perecer nas armas que seriam negociadas pelo traidor Shigekure. Ao me omitir e deixar o Xogunato vencer muitas vidas inocentes seriam ceifadas. Portanto para uma nova era acontecer derramar um pouco de sangue era melhor do que ver todo o sangue derramado pela corrupção dos homens do Xogunato enquanto viviam suas belas vidas às custas do povo do Japão.

Como o raio que vi mais cedo, uma árvore seria queimada para que a terra recebesse seus nutrientes e uma nova mata se formasse. Um efeito colateral da natureza que florescerá com nova vida. Um sorriso no rosto e uma canção no coração me acompanham durante o caminho de volta.

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