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segunda-feira, 1 de junho de 2020

Sobre Cães e Lobos - 09






“AS PESSOAS SÓ IRÃO ENTENDER UMAS ÀS OUTRAS QUANDO SENTIREM A MESMA DOR”


Apesar do receio de ter seu segredo revelado, ela e Yamada nunca tiveram uma conversa profunda como aquela. Talvez ele não fosse tão babaca quanto ela pensava, mas ele só estava falando tudo aquilo por estar extremamente bêbado.

Quando estavam sentados conversando a menina tinha em sentimento de igualdade. Naquele momento não era menosprezada por ser mulher e nem pela maneira que pensava.

Akemi levou um susto quando Yamada se ergueu de repente e corou ao encarar sua nudez. Mas ficou olhando seu rosto, já que ele falava tão empolgado. Chegou até sorrir com aquelas falas entusiástica.

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Mas o rapaz vomitou de repente e caiu deitado de bruços. Ela olha o estado lamentável que o homem estava por conta da bebida.

- Aisshhh….. - Disse amuada

Ela rapidamente enrola a toalha ao redor do corpo e sai da banheira, evita pisar no vômito e se aproxima do rapaz. Ele tinha desmaiado, iria avaliar se não havia nenhum ferimento. Se estivesse tudo bem com ele. A gatora iria para ante-sala se trocar e prenderia o cabelo num coque.

Ela volta para o banheiro com panos de limpeza e um roupão, que joga sobre o corpo do rapaz.

- Hey...Yamada, acorda…. - Cutuca o rapaz no ombro

Se ele não reagisse iria até o dormitório pedir ajuda, alguém teria que carregá-lo para a cama. Mas iria falar com os companheiros para serem discretos, afinal ninguém do pelotão iria querer ser punido pelo Capitão Harada.

Depois voltaria para limpar o vômito e esvaziar a banheira. Ela limpou no modo automático, pois já estava acostumada a fazer tarefas domésticas.

Já deveria estar amanhecendo, mas antes de deitar foi checar se Yamada está bem. Se ele tivesse dormindo deixaria descansando. Cansada Akemi iria procurar sua cama, talvez conseguisse cochilar por algumas horas.

sábado, 30 de maio de 2020

Sobre Cães e Lobos - 08





“AS PESSOAS SÓ IRÃO ENTENDER UMAS ÀS OUTRAS QUANDO SENTIREM A MESMA DOR”


A garota relaxava na banheira e estava perdida em pensamentos juvenis. Sentia que não era tão bonita quanto as outras mulheres, sentia admiração e pena por enganar Yuri e tinha sentimentos confusos sobre o Capitão Harada, qual o limite de uma admiração e uma paixão.

Quando mergulhou na banheira foi assombrada por pensamentos piores. Se lembrou da noite passada e na sucessão de mortes que ocorreu, incluindo execuções feita pela jovem. Sempre se sentia culpada após esses atos, mesmo sabendo que tinham um propósito, mesmo sabendo que fez isso para se defender. Odiava aqueles olhares, sempre tão tristes e sem esperanças.

Nessas horas tentava pensar como o irmão, o que Akira faria naquela situação. Mas quando treinava sempre lutavam contra super vilões malignos e infelizmente a realidade era bem diferente. Na guerra não existe lado bom ou mau, são apenas pessoas que fazem escolhas e defende essas ideias, morrendo por elas na maior parte das vezes. Só esperava estar fazendo as escolhas certas.

Akemi pulou de susto ao ouvir o cabo de vassoura quebrando e se encolheu ainda mais dentro da banheira. Ela reconheceu Yamada pela voz e ficou vermelha como um pimentão ao ver o rapaz nu na sua frente.

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Rapidamente a jovem desvia o olhar e tenta proteger o corpo da melhor forma possível. O homem senta num banquinho e ela  agachada dentro da água se posiciona estrategicamente de costas para o rapaz e mais próximo da toalha que trouxe para se enxugar.

Yamada estava bêbado, podia perceber pela voz arrastada e talvez com sorte a bebida e o vapor ajudaria a menina a se proteger. O rapaz a provoca, mas não percebeu ironia em sua voz.

- É claro que tomo banho, mas prefiro fazer isso sozinho.

Provavelmente ele tomaria o banho sentado, então por enquanto ela estaria segura na banheira? De qualquer maneira ela não poderia se levantar ou ele iria descobrir seu corpo feminino. Akemi mantém as costas apoiadas na borda da banheira e dobra os joelhos sobre o peito, até chegou a se encolher um pouco. Talvez a melhor maneira era aguardar Yamada terminar o banho sem alardes e enquanto estivessem de costas um para os outros estaria segura.

- Você se lembra de todos os rostos?? Digo… das pessoas que você já matou... - ela tenta iniciar uma conversa amena, pois sabia que o jovem gostava de se exibir em combate.

Se caso Yamada se aproximasse ela iria cobrir o corpo com a toalha e na pior das hipóteses, se ele estivesse bêbado o suficiente para tentar algo contra a jovem, ela socaria seu nariz, a dor do golpe iria ofuscar o rapaz por um minuto e a menina fugiria para ante-sala com a toalha cobrindo a frente do corpo.

Yamada cambaleava de bêbado, tropeçando nos menores desníveis do piso. O cheiro de álcool era possível de ser sentido de longe. Tão bêbado estava que nem percebeu a expressão de choque e de apreensão no rosto de Akemi. Sentou-se e começou a se lavar, esfregando com uma bucha a pele, até que ela ficasse avermelhada. Quando Akemi perguntou-lhe sobre se ele lembrava dos rostos dos inimigos que havia matado, ele a olhou com ar de deboche:

-"Oque? É por isso que você saiu de fininho da festa pra chorar no banho? Frouxo."- disse, com aquele meio-sorriso nos lábios que sempre deixa Akemi em vias de socá-lo.

Ela faz uma sutil careta ao ouvir esse comentário. Yamada sendo o Yamada. Mas não podia contar o real motivo e nem ser conhecido pela tropa como frouxo.

- "Claro que não... eu não estava me sentindo bem por causa da bebida."- Disse-lhe com rispidez, virando-lhe as costas.

Porém, Yamada a interrompeu, provavelmente nem tendo ouvido a resposta. E disse-lhe, com a voz arrastada de bebedeira, mas no tom sério de quem compartilha uma verdade grave:

-"Lembro. De todos eles. Mas eu não lamento. Eu não tenho tempo pra lamentar. Sabe o que eu penso quando lembro do rosto deles, Ishida? Penso que são pobres coitados. Que não nasceram maus, mas se tornaram maus. Por causa dessa era podre em que vivemos". Disse, baixando a cabeça e suspirando profundamente, enquanto largava a bucha e procurava o balde para jogar sobre si.

-"Ei, Ishida... Qual você acha que é a origem do mal?"- disse com a voz tão embargada pela bebida que mal era possível lhe compreender.

- "Humm... Todos estamos lutando por algo que acreditamos.  Nós do Shinsengumis e as pessoas que matamos não somos diferentes... todos sentem a mesma dor, raiva e revolta. O que nos diferencia é a escolha de nossas ações. "- Ela olha para a mão enrugada pela água - "Para mim o mal é como uma semente que cresce quando é regada pelo ódio, inveja e preconceito. Mas ninguém é bom ou ruim... já que todos temos a capacidade de nutrir esses sentimentos"- Akemi brincava com seu reflexo na água enquanto falava, e teve o reflexo de cobrir os seios com as mãos, mesmo estando imersa até o pescoço, quando viu que Yamada olhava para ela com o rosto sem expressão.

-"Ishida, a única coisa que te impede de ser uma garota é o seu pau."- disse subitamente, e riu tanto que engasgou e tossiu.

Akemi tinha ficado boquiaberta quando Yamada sugeriu a possibilidade dela ser uma garota, e corou como um pimentão quando Yamada se levantou, expondo mais uma vez sua nudez e, para desespero de Akemi, caminhou em sua direção e entrou na banheira junto com ela. Contudo, estava tão bêbado que nem olhou pra ela, apenas para o teto, enquanto falava.
E então, ele diz:

-"Um homem rouba pra alimentar seu filho que passa fome. Mas a pessoa de quem ele roubou acaba morrendo de fome depois. Quem é mau aqui? O ladrão? Nós, que impedimos o roubo? Ou esta era, que inunda o coração dos homens com desesperança e sofrimento, e faz neles florescer a maldade?"

Akemi ficou pensativa por alguns segundos, com medo de se mexer demais e Yamada acabar percebendo seu corpo feminino.

- "Não foi justamente por isso que nos alistamos !?  O governo japonês fecha os olhos ao sofrimento do povo e as pessoas desesperadas cometem loucuras. Tentamos colocar ordem nesse mundo caótico, mas isso não nos torna pessoas melhores do que o ladrão que busca sustento para sua família."- disse-lhe seriamente. Yamada sorriu um sorriso largo e deu-lhe um tapa nas costas inesperado, que fez arder a pele branca de Akemi.

-"exato! Meu garoto! É por isso, Ishida, que não podemos lamentar. Não podemos hesitar. Nós temos de caminhar no inferno. Pra proteger os fracos. Pra defender os indefesos. E pra eliminar imediatamente o mal."¹

E então ele fica de pé, expondo novamente seu sexo e fazendo Akemi corar mais uma vez e tentar desviar os olhos da nudez do colega. Ele ergue o punho e fala com a voz alta:

-"Uma era onde o coração dos homens esteja tão repleto de alegria que não haverá espaço pro mal! Onde nenhuma criança precise chorar de fome! Eu vou forjar essa era com essas mãos, Ishida! Você vai v--" e então ele vomita, de tão bêbado, e cai da banheira, apagado no chão.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Sobre Cães e Lobos - 07





“AS PESSOAS SÓ IRÃO ENTENDER UMAS ÀS OUTRAS QUANDO SENTIREM A MESMA DOR”

A menina viu a apresentação da Gueisha e a aplaudiu animada, ela tocava muito bem e tinha uma voz incrível. No fundo, ela sentia um misto de admiração e inveja por Yuri, queria ter sido uma mulher graciosa como ela. Mas por ter esse jeito de moleca, era facilmente confundida com um homem. Akemi suspirou resignada, por causa disso não percebeu a intenção da piscada maliciosa da jovem.

Quando acabou a apresentação, Yuri voltou a sentar do seu lado e lhe oferecia sakê, mas a jovem recusava timidamente, alegando ter baixa resistência a bebida alcoólica. Já estava de madrugada e os homens ainda estavam entretidos com a festa. Quando o Capitão Harada anunciou que iria se recolher, Akemi aproveitou a oportunidade para sair e tomar o tão desejado banho de água quente. Ao se despedir da Yuri, ela cora e fica sem jeito.

Na rua Akemi vê o Capitão cambaleando de bêbado, a jovem se prontificou a ajudá-lo, colocando o braço dele sobre seus ombros, enquanto com a outra mão estava apoiada na cintura do homem. Essa aproximação fazia o coração da jovem bater mais rápido. O homem falava enrolado de tão bêbado que estava e apesar de estarem próximos no quartel, ele não poderia entrar daquele jeito ou seria punido. E ela também não aguentaria carregá-lo por muito tempo, então Akemi desviou o caminho e parou perto de onde os cavalos bebiam água. Ela precisava deixá-lo sóbrio, colocou ele sentado e apoiou suas costas numa parede. A jovem enchia as mãos de água e passava na nuca do rapaz. Então reparou no kimono aberto dele e começou a corar violentamente ao observar os músculos definido.  As faixas que cobriam seu abdômen estavam frouxas e mostravam uma grande cicatriz

- Senchõ...como ganhou essa cicatriz?- Disse de maneira tímida

Mestre mode on:
Ele fica sério de repente. Silencioso, embora estivesse fazendo vários gracejos durante o caminho. Ele acertas as faixas com a mão livre, escondendo a cicatriz.
Depois de alguns momentos de silêncio constrangedores, ele diz em voz baixa.



"Veio de outra cicatriz maior. Mas nem toda cicatriz é visível."


- Me desculpe...-se afastou constrangida, mas entendia o que ele dizia- O senhor consegue andar?

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Ele ergue a cabeça e te olha por um segundo.


"Você é um bom rapaz, Ishida."

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Ele se levanta e agradece, e caminha sozinho, embora trôpego, ao alojamento.

Ainda bem que ele não viu a jovem corar com aquele comentário. Quando chegasse ao quarto, iria buscar suas roupas discretamente e sairia de fininho, de preferência sem ser vista por ninguém. No banheiro iria checar se ele estava realmente vazio, se tivesse alguma maneira de trancar ou bloquear a porta ela faria. Quando se sentisse relativamente segura de que ninguém a veria a jovem começa a retirar as roupas e solta os cabelos castanhos que estavam na altura do queixo. Ela passa as mãos nos cabelos para desembaraçar os fios e sente falta de quando eles eram longos e bonitos que nem da Yuri.

"Se eu fosse bonita como ela, eu também teria vários homens interessados em mim."- Pensou um pouco chateada por sua falta de atrativos femininos

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A jovem entra no ofurô e sente a água quente cobrindo o corpo. Fazia tempo que não tinha um tempinho só para si e relaxar. Repassou mentalmente os acontecimentos daquela noite, seu encontro com a Gueisha e o interesse dela por Akira e sobre o capitão Harada, normalmente ele era uma pessoa alegre, mas esta noite ela conheceu um lado sombrio  dele que não conhecia. Confusa com seus sentimentos a menina mergulha na banheira, para afastar todos aqueles pensamentos.

A água quente fazia maravilhas pelo corpo cansado de Akemi. Ainda tinha os braços pesados do dia anterior. Parou pra refletir por alguns breves momentos. Matar não era tarefa fácil. Quando treinava com seu irmão, imaginava que trilhar o caminho da espada era algo heróico, repleto de façanhas e aventuras. Pensa-se em matar inimigos, mas são sempre entidades malignas e imaginárias, vilões terríveis que encontram um fim justo na lâmina do herói. Nada pode realmente te preparar pra ver a luz deixar os olhos de alguém. Nada realmente pode te prevenir de sentir o peso da responsabilidade de pôr fim a uma vida. E a cada vida que sua lâmina ceifava, Akemi sentia como se algo fosse levado dela própria. Tinha medo de um dia se tornar insensível aquilo e simplesmente parar de se importar.


Mas hoje, ainda sentia o peso dessa responsabilidade. E na noite de ontem, ela havia posto fim a vida de um dos homens do bando de ladrões. Um cavalariço, mais velho que ela. Ele estava vigiando os cavalos, e teria fugido se Akemi não o tivesse alcançado a tempo. Ele a teria matado se ela não reagisse. Ainda era capaz de sentir a lâmina cortando o peito do homem. A sua técnica havia sido perfeita: desviara do golpe do inimigo, movendo-se lateralmente para a abertura em sua guarda. Em seguida, desferindo-lhe um golpe vertical contra a jugular exposta. Seus mestres ficariam orgulhosos da execução perfeita, mas quando a chuva de sangue lavou-lhe o rosto, Akemi retornou à realidade. Havia ceifado uma vida. Vilão ou não, aquilo era responsabilidade dela. E ela sentia o peso dessa responsabilidade, incapaz de dissolvê-la na água quente da banheira.
Foi quando ouviu a porta ranger e um ruido de madeira estalando. Havia colocado uma vassoura bloqueado a porta corrediça que dava entrada ao banheiro, mas aparentemente, o cabo quebrou quando forçaram a porta, e agora alguém entrava.


O ambiente estava repleto de vapor, e não era possível ver bem. Mas a voz de um Yamada tremendamente bêbado ecoou pela sala de banho.
-"Maldita vassoura! Quem diabos a colocou ali?"- praguejava em voz alta, caminhando em direção à banheira.
Estava completamente nu, pelo que Akemi podia ver. A visão de seu membro viril fez-lhe corar até as orelhas.
-"Hã? Ishida? Quem diria, eu achei que você não tomasse banho."- disse, e riu alto, enquanto sentava-se nu num banquinho, enchendo o balde com água.

domingo, 12 de abril de 2020

Sobre Cães e Lobos - 06





“AS PESSOAS SÓ IRÃO ENTENDER UMAS ÀS OUTRAS QUANDO SENTIREM A MESMA DOR”

Akemi retribui o cumprimento e se apresenta como Akira Ishida, ela sabia que não ia atingir suas expectativas, mas retribui o sorriso um pouco sem graça.

Ao entrar no salão, percebe que o povo estava muito animado com uma queda de braço entre o Capitão Harada e Yamada, a quem ela teve o desprazer de conhecer. Ele era um homem machista, ambicioso e talvez até um pouco preconceituoso e vivia implicando com ela quando faziam as missões juntos.

Yamada se aproximou dela e apoiou os braços em seus ombros, atitude que Akemi achou bem invasiva, mas o pior foi seu comentário, isso fez Akemi se injuriar.


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- Encontrei essas lindas jovens por acaso, mas espero que sejam respeitosos com nossas convidadas.- Disse olhando para o Yamada, mas o recado servia para todos os homens da sala.

Felizmente o Capitão se aproximava para quebrar o clima de tensão. Ele pegou em suas mãos e falava de maneira arrastada, ela conseguia sentir o hálito etílico a distância. Ele se ajoelhou a sua frente e começou a tirar a roupa, não teve como não sentir o rosto queimando de vergonha.


- Senchõ, não faça isso!!!


Akemi não sabia se ele estava alcoolizado para cometer uma loucura, mas logo percebeu que era uma brincadeira, já que todos riam e achavam graça da situação.

A gueisha sentou ao seu lado e lhe serviu sakê, mas a menina recusou educadamente e afastando o copo com a mão. Novamente a atenção da jovem era centralizada no samurai. Yuri tinha um charme natural e apesar de não sentir atração física, ela era uma companhia agradável

- Err… não tenho nada em mente. Mas pode tocar algo alegre para o grupo?

Yuri sorriu diante do pedido de Akemi, e a moça se levantou. Ela caminhou até um tablado mais elevado, que fazia as vezes de palco improvisado. Havia uma grande almofada vermelha, onde ela se sentou e pegou seu Shamisen. A moça tocava de forma primorosa, e tinha uma voz aveludada que era muito agradável aos ouvidos. 

A música que tocava era uma min-yo¹ popular. Tinha o ritmo alegre e fazia piadas de cunho obsceno. Os homens rapidamente puseram-se a cantar junto com a geisha, e gargalhavam quando ela finalizava uma estrofe em que fazia piadas de duplo sentido. Akemi poderia jurar que Yuri lhe ofereceu uma sutil piscadela em uma das piadas de cunho sexual particularmente mais óbvio, mas provavelmente era impressão.

A festa seguiu seu curso, com os homens animados e as geishas se revezando no entretenimento. Yuri era uma excelente companhia, e mais ousada do que a impressão inicial que Akemi tivera. Ela insistiu algumas vezes (embora com cuidado de nunca ser rude) que Akemi tomasse um pouco mais de sake, dizendo-lhe que seria um desperdício triste de boa bebida. Os colegas do Shinsengumi endossavam a opinião da bela geisha, que ria com seu sorriso contagiante a cada piada que contavam e gracejo que faziam.

Tudo estava bem, até que o Capitão se ergueu e se despediu dos rapazes. Disse que a hora já estava avançada e que precisava ir pra casa, mas desejou boa festa aos homens e ordenou que se comportassem. Todos deveriam estar prontos para a patrulha ao raiar da primeira luz da manhã, sem desculpas.


¹- Música folclórica japonesa, com balanço característico e ritmo 2/4.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Sobre Cães e Lobos - 05

A jovem Geisha abre um sorriso largo quando percebe que Akemi decidiu ficar mais um pouco, e suas amigas cochicham nervosamente entre si. A bela jovem une as mãos com as palmas viradas para baixo um pouco acima da linha do umbigo e faz uma reverência formal.

-"Meu nome é Onna Yuri. Por favor, tome conta de mim essa noite"¹- ela diz, ainda levemente corada, com um sorriso. Akemi percebe que o sorriso da moça é daqueles tão bonitos e radiantes que não se pode evitar sorrir junto dela.
Akemi retorna ao salão do restaurante com as belas Geishas, e percebe que o ambiente está bem barulhento. Bastou entrarem novamente pelas cortinas vermelhas para ver que Capitão Harada estava tirando uma queda-de-braço com Yamada Shirou, um recruta que entrou na mesma turma de novatos que Akemi. Yamada era um garoto audaz e viril, ansioso para se tornar um herói, cumprindo façanhas e se tornando famoso através do caminho da espada. Ele podia ser bem desagradável as vezes, a Akemi não gostava de ser designada para missões junto com ele. Porém, talvez como compensação por ter recebido a sorte de estar sob o comando de Harada, a jovem samurai sempre acabava no time de Yamada, pra seu eterno desgosto.

Os outros membros da tropa gritavam vivas e incentivos, e apesar de terminantemente proibido pela filosofia do Shinsengumi, Akemi poderia jurar que viu alguns apostando. Mas, quando as Geishas entraram junto da jovem no salão, um silêncio momentâneo tomou conta do lugar quando todos olharam em sua direção.

-"I-ishida... voltou... com mulheres."- Yamada e o Capitão pareciam ter esquecido de sua queda de braço e olhavam embasbacados, embora ainda de mãos dadas, tornando a cena estranha de se ver.

Yamada se levantou subitamente, e caminhou até Akemi, atirando o braço pesado em seus ombros, e falando com um sorriso malicioso:

-"Ishida, seu safado garanhão miserável... Quem diria?"

As Geishas começaram a ocupar o espaço do salão, conversando com os homens, servindo-lhes bebidas e entretendo a tropa. A festa, que já estava animada, ganhou novo fôlego. E, aparentemente, Ishida ficou com o crédito por ter trazido as moças até a festa, e os rapazes da tropa lhe agradeciam e elogiavam.

O capitão se levantou também e andou até Akemi, segurando-a pelas mãos com o rosto muito sério. Tinha a face avermelhada e seu hálito fedia a álcool.

-"Ishida, eu falhei com você. Lamento ter duvidado da sua masculinidade. Irei redimir minha honra cometendo Seppuku."-
e então se ajoelhou em seiza², encolhendo os braços para dentro das mangas do uniforme e depois tirando pela gola, ficando efetivamente com o torso nu. O capitão tinha o corpo sólido de alguém dedicado aos treinos, e as Geishas soltaram gritinhos. E então o capitão sacou sua Wakizashi³, mas a tropa apenas fingiu chorar e gritavam "vamos sentir sua falta, Capitão!" ou "Morra com honra!", e então Harada se levantou e gritou com a tropa.
-"OI, MISERÁVEIS! Vocês tem que impedir bêbados de fazerem besteiras, e não incentivá-los!

Enquanto a confusão da tropa parecia animar a festa e divertir as geishas, Yuri se aproximou de Akemi e sentou-se ao seu lado, servindo-lhe uma dose de saquê.
-"Em breve eu irei tocar o Shamisen4. Tem algum pedido especial, senhor?- uma mecha do cabelo dela se soltou do penteado enquanto ela se curvou para servir, e ela afastou a mecha para trás da orelha de forma adorável.


¹- O nome da Geisha é um trocadilho. "Onna" significa mulher. "Yuri" significa lírio, mas também é um gênero de mangás sobre lésbicas. (Nota do Narrador: de nada, pessoal)

²- Postura formal japonesa, de joelhos.

³- Espada curta

4- Instrumento de cordas parecido com um banjo, mas com o braço mais comprido. Chama atenção que se toca usando um tipo de leque como palheta.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Sobre Cães e Lobos - 04





“AS PESSOAS SÓ IRÃO ENTENDER UMAS ÀS OUTRAS QUANDO SENTIREM A MESMA DOR”

Akemi era uma adolescente fingindo ser gente grande e beber o saquê provou isso ao grupo. A careta que fez explodiu o salão com gargalhadas. Ela sabia que não aguentaria beber mais um copo e seu medo era que alguém descobrisse seu disfarce, então não poderia abaixar a guarda. Mesmo com o tom de brincadeira e provocação, a jovem se despediu e deixou os homens festejando.

Aquele sakê era forte demais e em poucos segundos sentia os efeitos pelo corpo, estava sentindo-se leve, mas as pernas estavam lentas. E precisava aproveitar essa ocasião, em que todos estavam entretidos com a festa, para tomar um bom e longo banho sozinha. Já até imaginava a água quente relaxando os músculos doloridos.

Ao afastar a cortina vermelha, sentiu que trombou em algo e viu uma jovem caída na calçada. Ela era muito bonita, tinha os cabelos negros, usava um yukata impecável e estava bem maquiada. O jovem estendeu a mão e ajudou ela a se levantar, pois sabia o quanto essa roupa limitava os movimentos.

- Me desculpe. Eu que fui desatento e acabei te derrubando sem querer. Você se machucou em algum lugar?

Akemi observa a mulher mais atentamente procurando por arranhões ou machucados que podem ter surgido na queda. E a geisha pode perceber que o jovem não usava um linguajar formal, primeiro porque aparentavam ter a mesma idade e outra porque ela era uma garota, então o seu modo de falar foi por instinto.

Ao ver a garota elogiando e fazendo uma reverência, ela também retribuiu o gesto.

- Sim, mas não precisa agradecer, ficamos felizes por zelar pela segurança do bairro.

A jovem sorri, ainda muito corada, com a preocupação do bonito e atencioso Lobo de Mibu.

- "Eu estou bem, obrigada. Mas o senhor já está de saída? Por favor, fique mais um pouco! Eu -digo- nós vamos cantar para o senhor -digo- para os senhores" Ela fala de forma atrapalhada, e leva as mãos ao rosto ao falar, enquanto as amigas riem dela.

O efeito do álcool já começava a subir para a cabeça da jovem que se sentia levemente tonta e mais alegre do que o normal. Ao ouvir o convite da jovem, sorri em resposta.

- Posso ficar mais um pouco, será um prazer ver a apresentação de jovens tão bonitas.

Akemi decide tomar banho mais tarde, quando todos estivessem dormindo pelo efeito da bebida. E seria bom ela voltar para o restaurante para conter os ânimos do Capitão e dos homens mais assanhados, uma comemoração como aquela não poderia ser estragada pela má conduta de homens embriagados e ela temia a reação do Comandante Kodou Isami se algo acontecesse. Então o jovem samurai dá passagem para as geishas e adentra o local novamente.

terça-feira, 17 de março de 2020

Sobre Cães e Lobos - 03

A qualidade do saquê era terrível, e a careta de Akemi fez seus colegas gargalharem. Capitão Harada deu palmadinhas no próprio joelho enquanto engasgava com o próprio riso. Quando a jovem samurai disse que se retiraria da festa, seus colegas protestaram e fizeram provocações, colocando em questão a masculinidade da moça. Mas, os protestos foram rapidamente esquecidos quando ela serviu os copos de seus colegas, que se encarregaram de beber e brincar enquanto a moça se afastava do salão.

Ishida sempre foi fraca para a bebida, e sabia que aquele copo de saquê cobraria seu preço. Já sentia o entorpecimento característico da embriaguez amortecendo seus passos. Precisava voltar logo para o alojamento. Tomar banho era sempre uma tarefa complicada, e não podia desperdiçar a oportunidade de poder banhar-se enquanto seus colegas estavam todos entretidos na festa e não haveria perigo dela ser pega.

Quando abriu as cortinas de seda vermelha que fazia as vezes de porta do Aoki-ya, esbarrou em uma moça, que perdeu o equilíbrio e caiu sentada. A moça usava um belo yukata¹ azul celeste, com uma grande faixa branca na cintura. Era provavelmente da mesma idade que Akemi. Tinha os cabelos negros e longos penteados em uma trança adornada com flores, e usava maquiagem pesada nos grandes olhos castanhos e lábios vermelhos. Uma Geisha, Akemi logo percebeu. A festa ficaria ainda mais animada em breve. Tomara que o Capitão consiga conter os excessos, ou teria problemas sérios com o Comandante. Haviam outras geishas, que socorriam a colega caída e faziam reverência ao nobre samurai, pedindo desculpas pela amiga desastrada ter esbarrado nele.

Quando a moça ergue os olhos e encontra o olhar de Akemi, ela imediatamente cora. E quando o jovem samurai oferece a mão para que a moça levante, ela cora violentamente até as orelhas. Akemi sente o toque macio da mão da Geisha na sua, conforme ela se levanta de forma atrapalhada pelos movimentos muito limitados pelo yukata. Akemi não tem boas lembranças de quando era obrigada a vestir aquilo. O gi² masculino oferecia muito mais liberdade aos movimentos e era bem mais confortável.


-"O-obrigada, mas sou eu quem lhe devo desculpas, senhor."- A moça afastou para trás da orelha uma mecha de cabelo da sua franja, que havia caído em seu rosto. A moça sorria de forma adorável enquanto se ajeitava e recompunha a compostura. E então, a jovem nota o uniforme usado por Akemi, o azul celeste com detalhes brancos característico de sua tropa.

-"O senhor é membro do Shinsengumi? Muito obrigada pelo seu trabalho!"- ela disse, enquanto faz uma reverência, que foi prontamente seguida por suas amigas.


¹ e ²- Vestimenta tradicional japonesa

quarta-feira, 11 de março de 2020

Sobre Cães e Lobos - 02

O início

Akemi chegou a Kyoto depois de cavalgar 2 dias consecutivos rumo a noroeste. Havia uma aglomeração de pessoas para se alistar ao exército do Shinsegumi. A jovem disfarçada como o irmão, caminhou por entre jovens, homens e até mesmo idosos, ela estava decidida a mudar de vida. E ao se aproximar dos principais oficiais, retirou o chapéu de viagem.

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Seu rosto era delicado e a pele muito branca, se comparasse com a maioria do que estavam ali, mas havia uma determinação no olhar que poucos tinham. A jovem estendeu o papel que confirmava o recrutamento feito em Tokugawa. Antes de falar, pigarreou e tentou deixar a voz o mais grossa possível.

- Será um prazer servi-los. - A garota fez uma reverência para os capitães e sem mais delongas partiu em direção ao seu cavalo, pois precisava cuidar do animal.

Por sorte foi escalada para a 10° divisão que mesmo com todas as dificuldades em se passar por um garoto, o grupo fez se sentir acolhida. O Capitão Harada era gentil e realmente se preocupava com seus subordinados e isso fez Akemi nutrir uma admiração pelo comandante.

Mas nem tudo foi fácil para a garota, ela e outros novatos tiveram um rigoroso treinamento, durante alguns momentos ela realmente pensou em desistir. Sua maior dificuldade foi matar pela primeira vez, ver o medo no olhar, os pedidos de clemência e mesmo assim brandir a espada e ceifar a vida de alguém era e ainda é muito difícil para jovem.. Mas com o passar do tempo Akemi ia amadurecendo, aprendeu que a guerra não era piedosa para ninguém, a morte chega para ambos os lados. Ela matou pessoas, mas também perdeu colegas e percebeu que se ela não fosse mais ágil e esperta seria o corpo dela caído invés do inimigo. Então deveria zelar por sua vida e pela vida dos companheiros da décima divisão..

※※※ Fim do Flashback※※※

Aquela noite era um motivo para festejar,  com a permissão do Comandante, o grupo conseguiu destruir um covil de bandidos e finalmente os moradores teriam paz em suas estradas. O restaurante era modesto, mas sempre tratou bem o pessoal do Shinsengumi, a garota estava no meio da mesa, comendo com outros companheiros, quando ouviu o Capitão Harada gritar seu nome.

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Akemi se aproximou de onde ele estava e se sentou ao seu lado. Viu o rapaz encher um copo de saquê para ela e a provocação não passou despercebida.

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Akemi pegou o copo e quando recebeu os tapinhas nas costas, um pouco da bebida caiu na mesa, mas ela bebeu tudo num só gole. Sentiu o líquido descendo e queimando a garganta. Não conseguiu evitar de fazer uma careta.

Quando tinha sido a última vez que bebeu e festejou entre amigos? Devia ter sido em seu último aniversário, junto com o irmão. Por um breve momento, sentiu falta de Akira e desejou que ele estivesse ali presente. Mas com o passar do tempo o luto ia se tornando mais ameno e Akemi conseguiu se desvencilhar do pensamento antes de alguém perceber ou foi o que ela achou naquela hora.

-  Sencho (capitão)...pra mim já chega… divirta-se vocês.

Ela serviu o copo de Sanosuke Harada e de quem mais estivesse por perto. Ia levantando de fininho para voltar ao seu lugar de origem. Não confiava no capitão bêbado e muito menos no que aconteceria se ela bebesse mais do que um copo.

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