segunda-feira, 23 de março de 2020

Vento Divino - 04

O Shinobi segurou o ar por alguns segundos... seus olhos puxados se fecharam milimetricamente, como se os cílios fossem filtrar qualquer partícula que atrapalhasse um tiro perfeito. Para Jun, ser o homem que dispararia a flecha era uma grande honra. A confiança de seu clã em seu treinamento e em seu sucesso era algo que ele não podia ignorar. Tinha de ser preciso, mortal... infalível!

A dúvida sumiu quando ele viu o homem na platéia. O sorriso da esposa não era mentiroso... e sósia alguma teria a permissão de tocar a esposa do Damyiô! Naquele ato de carinho entre o casal, o Damyiô assinou o seu óbito. Jun mordeu o lábio inferior e seus dedos se afastara em câmera lenta. A flecha partiu na noite e Jun ficou ali parado, olhando.... quando o grito da mulher ecoou no ambiente, como um lobo que uiva para a lua, ele teve a certeza.... o alvo não havia mais. Ele agora fora para as Terras de seus ancestrais, pagar por ter sido inimigo do clã do Shinobi.


Jun deu um salto mortal do parapeito, seguido de uma cambalhota e arremessou para trás uma corda com o gancho. Quando ela prendeu, garantindo que o SHinobi lutaria por mais uma noite, ele a esticou e foi correndo pela parede, formando um triângulo que crescia a cada sengundo, formado por suas pernas, a corda e aparede.
Quando atingiu o chão, Jun fez um balanço e puxou a corda com gancho de volta... não deixaria pistas para os homens de Hoji.

Ele escondu-se em um arbusto para esperar que não houvesse ninguém e então correu, pelo mesmo caminho que veio, indo em direção à praia e aos barcos, sempre tomando cuidado e mantendo os ouvidos bem atentos...

Caso não houvesse problemas e encontra-se seus irmãos, ele apenas menearia a cabeça, como quem diz "missão cumprida!" E entraria no barco.


O caos estava instaurado. Enquanto corria, era possível ouvir o som de tiros sendo disparados pelos homens do Daimyo, o que incitava a sensação de urgência no peito do shinobi. Mas, ele podia confiar em seus irmãos. Ele havia cumprido seu papel, eles cumpririam o papel deles. Era possível ver que vez ou outra um guarda do castelo se interpunha em seu caminho de fuga, apenas para ser abatido por um shinobi escondido nas sombras. Seus irmãos liberavam o caminho durante sua passagem, e a confiança de Jun cresceu, e ele venceu seu caminho até o muro sem maiores dificuldades.

Escalar a corda que o permitiria alcançar o topo da muralha lhe tomou mais tempo do que imaginara que tomaria, e percebeu que estava mais cansado do que imaginava. Mas a adrenalina cumpria sua função, e garantia a força extra necessária para continuar a execução do plano, agora na fase de fuga. Se tudo desse certo, teriam cumprido a missão de forma exemplar, sem nenhuma baixa. Quando alcançou o topo da muralha e foi obrigado a olhar para baixo, viu os barcos parados contra a terra negra da encosta, e era mais alto olhando de cima do que parecia ao observar de baixo. Sentiu um pouco de vertigem, mas encontrou a corda e empreendeu a descida sem maiores dificuldades. Sentiu-se aliviado quando pisou no pequeno bote de madeira e ouviu o som da madeira rangindo sob seus pés.



Em pouco mais de cinco minutos, os barcos estavam cheios de novo e seguiam seu caminho pela neblina do lago. Porém, o silêncio permaneceu. Os Shinobi sabem muito bem que as palavras rolam longe sobre as águas de um lago. Só voltariam a falar quando estivessem dentro da zona segura. Quando o botes alcançaram o centro do lago, se dividiram. Cada bote tinha seu próprio ponto de encontro e extração, e o bote de Jun seguiu tranquilamente pela rota estabelecida até alcançar a margem oeste do lago. Lá, uma carroça de palha aguardava os ninjas. Um de seus irmãos retirou o seu Shozoku¹, e vestiu roupas de aldeão, assumindo as rédeas da carroça. Jun e os demais se esconderam no palheiro que a carroça carregava.

Ficaram em silêncio por horas a fio, mas a adrenalina não permitia a Jun o menor dos cochilos. Manter-se parado era difícil, e logo os músculos ficaram doloridos graças ao excesso de tempo na mesma posição. Quando ouviu as batidas do condutor na madeira, soube que haviam chegado a zona segura, e ouviu seus irmãos batendo palmas e abraçando uns aos outros, congratulando-se pela missão bem executada.

Estavam em frente a uma pequena hospedaria nos arredores de Kyoto, fora da cidade, na Nakasendo². Adentraram a hospedaria, sentindo o cheiro doce do chá sendo preparado, e provavel alguns ohagi³. Jun sentiu a boca salivar. Quando chegou no quarto alugado, Jun e seus irmãos começaram a trocar de roupa, até que Nanami se aproximou.

A beleza da Kunoichi4 era sempre um brinde à visão de Jun. Sabia que deveria olhá-la com os olhos de um irmão, mas a nudez dela revelava uma pele macia e curvas que mesmo o Velho teria de admirar, e a falta de pudor dela em mostrar-se diante dos irmãos fazia qualquer um engasgar. Os deuses pouparam Jun de contemplar a nudez total de Nanami, pois os longos cabelos negros cobriam-lhe os seios, e seu fundoshi5 ocultava-lhe a flor, mas ainda assim, o corpo generoso da Kunoichi era sempre uma visão desconcertante. Ela tinha as mãos na cintura, sem pudor e sem tentar esconder seu corpo à visão do ninja, como sempre fazia diante dos irmãos. Nanami levava o termo "irmão" bem a sério, talvez mais do que deveria. Ela falava à Jun com o semblante preocupado.


-"Jun-kun, porque você atirou na platéia, e não no Daimyo? E de qualquer forma, o que pretende fazer? Vai voltar para a vila imediatamente?"

¹- Traje de shinobi.

²- Estrada que ligava Kyoto a Edo. Uma das cinco principais rotas do Japão.

³- Iguaria japonesa. Bolinhas de arroz cobertas de feijão doce e gergelim

4- Ninja do sexo feminino

5- Roupa de baixo tradicional japonesa, similar a uma tanga que deixa as coxas e nádegas desnudas.

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