Enquanto caminhava em minha mente surgiu um nome, Naomi. Fazia um tempo que o nome dela não fazia parte de meu cotidiano, Naomi Satsume. O que havia feito que o nome dela surgisse em minha mente agora? Por um momento durante um passo e outro tento lembrar o que houve e apenas vejo a imagem dos seios da moça que tirei a vida a pouco. Esse tipo de coisa a gente não vê todo dia e deve ter sido isso que fez com que lembrasse de Naomi.
Durante alguns anos após a morte de meus pais Naomi Satsume ajudou-me durante minha preparação para tornar-me samurai e executar meus serviços ao meu Daimyo. Eu era parte do treinamento dela também. Ela precisava aprender a executar as tarefas de uma esposa ou uma gueixa da corte e eu deveria tornar-me samurai. Ela arrumava as coisas em casa, lidava com serviçais e treinava diversas artes. Todo mês havia uma apresentação de dança e uma de música, no entanto ela também deveria pintar ou esculpir alguma coisa para marcar seu momento.
Começamos a treinar juntos ainda jovens, ela com cerca de 13 e eu de 15 anos. Eu era novo demais pra ela, portanto era um desafio maior, um desafio que deixava algumas marcas em alguns momentos, pois eu não sabia o que fazer em alguns casos e ela não me instruiu "preventivamente". Pra mim uma punição era parte do processo de ser um soldado, mas pra ela era uma marca que teria que ser coberta pela maquiagem. Nós nos tornamos muito próximos com o passar dos anos, foi uma amizade que cresceu bastante. Eu observava suas tarefas e comentava sobre as apresentações ou ensaios, já ela comentava sobre minha postura e escolha de palavras nos jantares ou eventos. Esse tipo de conversa entre nós trouxe vantagens ao nosso treinamento já que tínhamos liberdade de fazer comentários um ao outro enquanto que os mestres eventualmente usariam varas de madeira que deixavam contusões por alguns dias.
No entanto o nome de Naomi Satsume vem em minha mente com mais força, com mais detalhes, detalhes de um inverno rigoroso e um verão quente. Aquela visão, sim a moça com o kimono aberto, aquele inverno em que o fogo apagou. Fazia muito frio, havia fogo queimando e fui dormir normalmente. Ainda lembro que acordei no meio da noite com o barulho da tempestade de neve. O fogo havia se apagado e Naomi tentou acender, mas não conseguiu. Ela saiu no meio da tempestade para tentar pegar outra fonte de fogo, mas ao voltar ele havia se apagado no meio do caminho. Gelada e com pouca proteção do frio ela estava desmaiada perto do fogareiro. Acendi o fogo usando um rascunho de uma pintura que ela estava fazendo e a coloquei sentada abraçando meio peito de costas para o fogo. Eu a esfreguei pelo corpo, pelas pernas, braços e tórax para tentar acorda-la. Ela recuperou a consciência alguns minutos depois após eu achar que a tinha perdido. Foi um momento estranho, nós dois assim, abraçados com os kimonos entre abertos e nossa pele se tocando era mais quente que o frio da tempestade.
Aquele momento íntimo com um abraço e um longo beijo mudou nossas vidas. Naquela noite da tempestade foi como a fagulha e que acende o fogo. Nas noites subsequentes passamos a dormir juntos por conta do frio, mas também para aproveitar o momento que tínhamos a sós. A descoberta da sexualidade foi rápida, no entanto o segredo era importante e excitante. Ela disse que deveria permanecer pura para preservar nosso segredo, porém sua mestra comentou que havia outras coisas que uma mulher poderia fazer. Nosso destino não seria para permanecermos juntos, porém ambos queríamos aproveitar aquele momento ao máximo juntos. Assim o fizemos, durante o inverno primavera e verão ficamos juntos sempre que podíamos. O segredo e a excitação era viciante.
Até que um dia recebemos tarefas diferentes. Sem nos encontrarmos ela recolheu suas coisas e sumiu, enquanto eu recolhi meus pertences naquela casa vazia e parti para minha primeira missão como Hitokiri. Nós desaparecemos da vida um do outro assim como a vida saiu do corpo daquela linda mulher quando eu a acertei com a espada. Da mesma forma que a vida desaparece e não podemos falar com aqueles que nos deixaram, não posso fazer perguntas sobre Naomi pois poderia revelar nosso segredo.
Anos se passaram, no entanto nenhuma mulher foi como Naomi Satsume. Até o momento todas são apenas meninas, ela era uma mulher de verdade.
O caminho até a hospedaria não foi tranquilo. Além dos dilemas morais que fervilhavam na mente de Toshiro, o frio o incomodava, por ter descartado a porção mais quente de suas roupas. Temia também que sua aparência, com poucas roupas para o frio noturno, pudesse atrair para si atenção indesejada, sobretudo dos perspicazes Lobos de Mibu. Assim, decidiu evitar ruas principais e locais que normalmente tem maior movimento. Deslocou-se por becos e vielas até alcançar as imediações da hospedaria Hikari-ya, e sentia a superfície da pele gelada quando adentrou a soleira da porta.
-"Yamamoto-dono! Assim o senhor vai pegar um resfriado!"- Hikari Asami era a neta dos donos da pensão. Uma jovem de pouco menos de vinte anos, com grandes olhos negros, longos cabelos lisos e negros, que alcançavam-lhe os quadris e pele alva como neve. Trajava um quimono branco e púrpura tradicionalmente usado pelos funcionários da pensão como uniforme. Ela tinha o tom preocupado, e se aproximou rapidamente de Toshiro, lançando um cobertor em seus ombros.
-"Eu fiz um pouco de chá. Sente-se próximo ao fogo enquanto eu lhe preparo um banho. Francamente, Yamamoto-dono, não sei onde o senhor está com a cabeça em sair sem agasalhos numa noite fria como essa!"
Asami guiou Toshiro até a área de convivência dos hóspedes, que ficava logo após a recepção. Havia um pequeno braseiro, e uma mesa com chá fumegante.
Acompanhe os contos e aventuras de 5 personagens pelas ilhas antigas do Japão no período (幕末, Bakumatsu), que foi o período que abrange os últimos anos do período Edo, que corresponde ao final do Xogunato Tokugawa na história do Japão.
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