terça-feira, 17 de março de 2020

Sobre Cães e Lobos - 03

A qualidade do saquê era terrível, e a careta de Akemi fez seus colegas gargalharem. Capitão Harada deu palmadinhas no próprio joelho enquanto engasgava com o próprio riso. Quando a jovem samurai disse que se retiraria da festa, seus colegas protestaram e fizeram provocações, colocando em questão a masculinidade da moça. Mas, os protestos foram rapidamente esquecidos quando ela serviu os copos de seus colegas, que se encarregaram de beber e brincar enquanto a moça se afastava do salão.

Ishida sempre foi fraca para a bebida, e sabia que aquele copo de saquê cobraria seu preço. Já sentia o entorpecimento característico da embriaguez amortecendo seus passos. Precisava voltar logo para o alojamento. Tomar banho era sempre uma tarefa complicada, e não podia desperdiçar a oportunidade de poder banhar-se enquanto seus colegas estavam todos entretidos na festa e não haveria perigo dela ser pega.

Quando abriu as cortinas de seda vermelha que fazia as vezes de porta do Aoki-ya, esbarrou em uma moça, que perdeu o equilíbrio e caiu sentada. A moça usava um belo yukata¹ azul celeste, com uma grande faixa branca na cintura. Era provavelmente da mesma idade que Akemi. Tinha os cabelos negros e longos penteados em uma trança adornada com flores, e usava maquiagem pesada nos grandes olhos castanhos e lábios vermelhos. Uma Geisha, Akemi logo percebeu. A festa ficaria ainda mais animada em breve. Tomara que o Capitão consiga conter os excessos, ou teria problemas sérios com o Comandante. Haviam outras geishas, que socorriam a colega caída e faziam reverência ao nobre samurai, pedindo desculpas pela amiga desastrada ter esbarrado nele.

Quando a moça ergue os olhos e encontra o olhar de Akemi, ela imediatamente cora. E quando o jovem samurai oferece a mão para que a moça levante, ela cora violentamente até as orelhas. Akemi sente o toque macio da mão da Geisha na sua, conforme ela se levanta de forma atrapalhada pelos movimentos muito limitados pelo yukata. Akemi não tem boas lembranças de quando era obrigada a vestir aquilo. O gi² masculino oferecia muito mais liberdade aos movimentos e era bem mais confortável.


-"O-obrigada, mas sou eu quem lhe devo desculpas, senhor."- A moça afastou para trás da orelha uma mecha de cabelo da sua franja, que havia caído em seu rosto. A moça sorria de forma adorável enquanto se ajeitava e recompunha a compostura. E então, a jovem nota o uniforme usado por Akemi, o azul celeste com detalhes brancos característico de sua tropa.

-"O senhor é membro do Shinsengumi? Muito obrigada pelo seu trabalho!"- ela disse, enquanto faz uma reverência, que foi prontamente seguida por suas amigas.


¹ e ²- Vestimenta tradicional japonesa

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