quinta-feira, 19 de março de 2020

Sons, Gostos e Cheiros - 04


Sons, gostos e cheiros Caderno-diario-sketch-book-envelhecido-retro-vintage-folha-m-D_NQ_NP_705691-MLB25672372080_062017-FClement observa confuso aquele desplante com a jovem moça, os sinais de medo eram passados a distância até a pele de clement como um gato assustado que precisava de ajuda, nao era o mais forte dos homens mas tambem nao era fraco suficiente para deixar que uma donzela fosse abusada de tal forma.

A muito se ouvia sobre os abusos e desrespeitos cometidos aos nativos da ilha pelos imigrantes, muitas vezes esse era o maior foco dos problemas que clement podia ouvir. O quão bárbaros nos estamos sendo ? Não era pra nós os ensinarmos a arte da elegância e educação? ao menos respeito. Agora entendia o porque do termo  "Gaijin" sair das bocas com tanta rispidez.

Mais a frente os homens e a moça estavam quase despercebidos diante das caixas e baús no velho cais. Clement caminha rapidamente em direção aos homens e antes de se aproximar da um grito para chamar atenção dos trabalhadores ao redor;
" - EI ! Parem com isso, não está claro que a estão incomodando? ela mal pode falar nosso idioma, ou sera que o balançar dessas arcas velhas que chamam de barcos fez com que o cérebro de vocês virasse água!" Falando num tom alto as pessoas que estavam ao redor pararam de fazer o que estavam fazendo e começaram a se acumular ali. Talvez chamando atenção indesejada àqueles que perturbavam a moça se sentissem acuados e parassem o que estavam fazendo. Se aproximando na mesma velocidade ele encara todos eles e segura as mãos da donzela gentilmente estendendo um dos braço para que ela se apoie nele e volte a postura de dama. Alguns passos mais a frente ele busca em seu sobretudo seu caderninho e vai a rapidamente em uma página dobrada onde seu titulo tem uma rasura de comprimentos e afins, então lendo com dificuldade ele pronuncia Daijōbudesuka em voz baixa para evitar ser corrigido ou caçoado, perguntando se a moça está bem. Esperando uma resposta, um gesto um som qualquer, algo que mostrasse que ela está.

 A madeira do cais rangia sob os passos leves de Clement. Lembrava que considerava o cheiro da maresia agradável, durante suas caminhadas pela praia em Withernsea. Leeds era distante do mar, para uma cidade inglesa. Então pequeno Clement muitas vezes ficava ansioso para o momento no qual a viagem até o balneário próximo se findaria e finalmente alcançariam as brancas areias e ele poderia se deleitar com o beijo delicado do sol em sua pele, os sons de ondas tranquilas deslizando seu caminho até a praia e o lamúrio frequente das brancas gaivotas que habitavam tanto a praia quanto as heróicas histórias que lhe eram contadas na infância. Porém, temia que meses sendo chacoalhado em um navio em sua viagem singrando os mares por metade do mundo teria afastado quaisquer sentimentos de nostalgia que o cheiro salgado do cais de Dejima poderia ter-lhe trazido.

Observou por entre as frestas da madeira que um cardume de peixes coloridos se aglomerava sob o cais, provavelmente se alimentando de restos de comida que os marujos, taifeiros, grumetes e estivadores deixavam cair em suas idas e vindas pelo cais. Gastou alguns minutos observando o movimento fluido dos animais quando ouviu uma movimentação mais a frente.

Um jovem japonesa estava cercada por marujos. Eles eram apenas sorrisos e risadas, mas a moça tinha os olhos negros inundados de pavor. Falava com a voz baixa em sua lingua pátria, o que era automaticamente respondido pelos marujos com grosserias, que exigiam que a moça falasse inglês para permitir-lhe partir. A moça, sem entender as demandas cruéis dos marujos tentava em vão se proteger das mãos grossas que lhe seguravam pelos braços e dos olhares lascivos que os homens lhe lançavam.


Os homens ergueram a cabeça quando Clement gritou com eles. Olharam em direção ao rapaz, e em seguida olharam uns para os outros. Eram quatro marujos, de braços fortes e pele queimada pelo sol e curtida no sal. Dificilmente um jovem franzino como o pianista representaria ameaça aos algozes da moça, e tudo o que eles fizeram foi cair na risada pela bravata de Clement.

-"Dá o fora, garoto. Os adultos estão conversando."- disse rispidamente o homem que segurava a moça pelo braço. Ele tinha ja quase quarenta anos. A barba espessa escondia os lábios ressecados, e Clement achou assustadora a cicatriz que o homem envergava no rosto, que ia do nariz até a orelha.


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