quinta-feira, 19 de março de 2020

Vento Divino - 03

 Ao se aproximar da muralha, Jun sabia que era hora de guardar completo silêncio. Já haviam cordas posicionadas pelos seus irmãos infiltrados, que permitira ao grupo de execução realizar a escalada. Estava escuro e frio, mas assim era o mundo dos Shinobi. A corda de cânhamo era áspera ao toque e rangia a cada vez que se colocava esforço nela, mas Jun e seus irmãos seguiram em frente. escalada foi relativamente rápida, a despeito das condições desfavoráveis.

 Após alcançar as telhas de cerâmica escura que adornavam o alto dos muros, o grupo se separou para cumprir suas tarefas. Jun pulou para o jardim, onde se esgueirou pelos arbustos até as varandas de madeira encerada. Quando algum guarda ou patrulha se impunha no caminho do shinobi, seus irmãos encarregavam-se de silenciá-los e retirá-los do caminho. Logo avistou a sacada do quarto, e lançou seu arpéu. As garras do gancho encontraram  e se fixaram nas reentrâncias dos ornamentos da madeira e o ninja sentiu a firmeza que procurava ao esticar a corda. Escalou o mais rápido que pôde, e no caminho ouviu barulhos vindo do corredor abaixo. Viu guardas se aproximando, mas nem chegou a precisar se preocupar. Antes mesmo de ser avistado pelos guardas, um de seus irmãos, escondido em arbustos, acertou a garganta de ambos com dardos envenenados de sua zarabatana. Outro irmão saiu de seu esconderijo, pegou os corpos e se escondeu com eles dentro da casa.


 Jun alcançou a sacada, e ficou em silêncio por alguns momentos, prestando atenção aos sons que vinham do quarto, assegurando-se que não teria problemas. Após alguns segundos de silêncio, sentiu que poderia prosseguir sem problemas.

 Do alto da sacada, era possível ter um panorama de todo o jardim. Arvores e arbustos finamente podados decoravam a paisagem idílica, e no centro do gramado central, uma estrutura de madeira fora montada. Nela, o Daimyo de Hoji fazia sua apresentação. Vestia roupas teatrais e tinha uma máscara kabuki¹ nas mãos, enquanto declamava de forma exagerada versos de um antigo poema sobre os Três Reinos. Ao seu redor, era possível ver várias cadeiras, e sentados nelas uma série de pessoas. Na primeira fileira estavam os familiares de Hoji, sua exuberante mulher Hana, quinze anos mais nova que o nobre. Trajava um yukata² rosa e tinha os cabelos negros presos em um grande coque sobre sua cabeça. Estava acompanhada de seu primogênito Shuu, um jovem de pelo menos 14 anos mais parecido com a mãe do que com o pai e seus três filhos pequenos, Jion, Hatari e Miku, todos pivetes catarrentos cuja idade não teria mais de um dígito.

 Mas o queixo de Jun caiu quando ele viu o homem sentado atrás de Hana. Mesmo penteado de forma diferente, era possível reconher as feições do próprio Daimyo Hoji, como se uma raposa youkai tivesse tomado a forma dele e agora dois Damiyos ocupassem o mesmo lugar ao mesmo tempo, um assistindo a si mesmo sobre o palco. O jovem shinobi já ouvira falar de nobres paranóicos que gastavam fortunas para produzir sósias de si mesmos, chamados kagemushas, na esperança de evitar atentados contra sua vida. Mas era a primeira vez que Jun via algo do tipo.

 A dúvida persistiu durante um tempo, até que ele tirou a tensão da corda do arco e respirou fundo, lembrando-se de seu treinamento. Precisava "ver", e não apenas "olhar".

 Observou a figura no palco durante um tempo. Os movimentos exagerados, a canastrice... tudo era exatamente como nos relatórios. E o que mais diziam os relatórios? Jun observou atentamente a figura na platéia. Quando o ator no palco fazia movimentos engraçados, que gerava aplausos na platéia, o alvo se inclinava e falava algo no ouvido de Hana. Isso deixou Jun intrigado.

Até que o jovem Miku se virou para o homem e abriu um largo sorriso, e logo depois teve os cabelos despenteados de forma carinhosa pelo homem que sentava atrás. As dúvidas de Jun se dissiparam como nuvens de chuva após a tempestade.

 Retesou a corda do arco e a flecha cantou através da noite, acertando o homem na platéia na nuca. Gotas de sangue espirraram e atingiram Hana no rosto, que viu o corpo do marido cair sem vida no chão e gritou de horror imediatamente.



¹- Forma de teatro japonesa, caracterizada pela atuação muito caricata e pela maquiagem pesada e máscaras elaboradas
²- Vestimenta tradicional japonesa

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