domingo, 12 de abril de 2020

Noite Carmim - 06

O frio da noite poderia ser uma punição dos Kamis para as ações de Toshiro? Ele não acreditava naquilo, era apenas parte do processo de transformação do Japão. Uma ação necessária e que ninguém disse que seria fácil. No entanto ao ouvir os comentários de Hikari Asami algo precisava ser feito, uma explicação plausível precisava ser dada para evitar comentários constrangedores.

       -- Os Kamis decidiram sujar minha roupa hoje Asami-san. Não pude continuar com elas daquele jeito. O cheiro... não precisa de tantos detalhes. Obrigado por fazer essas coisas Asami-san. O atendimento aqui é muito bom.


 Essa era a verdade, os Kamis guiaram a mão de Toshiro e pelo corte da espada o sangue jorrou para onde os Kamis decidiram. Toshiro não poderia continuar com aquelas roupas daquele jeito e o cheiro de sangue, não precisava ser explicado para uma jovem. Sim, a verdade como Toshiro a via era fácil de aceitar e processar.

       Toshiro chega na área comum e o calor do fogo tomou o espaço. Para Toshiro o calor era como sentir as mãos quentes de uma mulher tocar a sua pele gelada após um banho frio. Cada parte que se aquecia trazia consigo uma sensação reconfortante e de prazer. O cobertor sugou o excesso de água sobre a pele, o chá iria aquecer seu interior e o banho seria o elemento central após essa noite de trabalho. Toshiro vê como Hikari está se esforçando para atender bem ainda mais naquele horário da madrugada que decide não falar nada sobre o chá que tinha um sabor passável. Se a receita das folhas estivesse certa, não era do sabor que Toshiro gostava, porém a verdade naquele momento poderia destruir os sonhos e o futuro da jovem Hikari Asami. Havia hora pra tudo, para apoio, para repreensão, para segunda chance e para o hitokiri.


        Alguns momentos se passarão até que o banho esteja pronto. Toshiro decide pegar roupas no seu quarto. Poderia ser estranho se alguém visse uma jovem entrando no quarto de um hóspede durante a noite. A honra dela poderia ser questionada, porém isso não era da conta de Toshiro. Ela poderia ter todas as experiências que quisesse, Toshiro apenas faria sua parte no destino dela. Assim que pegar as roupas limpas Toshiro irá tomar um banho, se possível limpará sua espada novamente.
        Por um momento enquanto pega as roupas Toshiro pensa em ter a companhia de Asami-san durante e após o banho. A saudade de uma mulher como Naomi Satsume pesava em seu coração mais do que gostaria de admitir. Toshiro sabia que não deveria pensar em Asami-san além dos serviços que ela estava prestando, era um impulso do momento, um resquício da imagem da moça com a blusa aberta que teve que eliminar.


        Toshiro retorna para a área comum com tudo o que precisa para o banho e aguarda a indicação de Asami-san de onde está a tina com água quente. O sentimento de que um futuro melhor o aguardava agora era tão reconfortante quando o banho quente que estava ficando pronto.



A água quente tocou a pele de Toshiro e ele teve a sensação de que o frio derretia e escorria pela superfície da sua pele conforme ele jogava a água aquecida. A área de banhos da Ryokan era ampla, mas não haviam outros hóspedes no momento, então teria o banho todo para si. Eles não contavam com um onsen¹ como os Ryokan mais abastados, mas os Hikari eram esforçados e havia água quente em abundância. O ofuro era mantido aquecido por um braseiro, então não precisaria se preocupar com a possibilidade da água esfriar.

Toshiro sentou-se no banquinho e começou a esfregar os músculos doloridos. Estava mais sujo do que imaginou. A lama saiu fácil, mas o sangue... O cheiro estava impregnado. Não sabia como tirar o cheiro de sangue de si. Esfregou-se até ficar com a pele vermelha, com doses generosas de sabão, mas ainda assim, o cheiro permanecia. Desistiu.

Quando estava devidamente limpo, entrou no Ofuro. A água estava um pouco quente demais,  mas Toshiro sentiu os musculos tesos relaxarem quando os mergulhou na água fumegante. Precisou de alguns segundos para se acostumar à temperatura e se sentar completamente, relaxando. E então ouviu a voz de Asami, vindo de fora da área de banho. Ela lhe perguntava se ele desejava jantar, ou se iria se recolher ao seu quarto após o banho.

Quando Toshiro chegou ao seu quarto, encontrou-o imaculadamente limpo. O futon² estava preparado, e Toshiro pôde entregar-se a um pesado sono sem sonhos.

Acordou pouco depois do sol se levantar. Não abriu os olhos, mas despertou. Perdeu um segundo sentindo a posição do seu corpo, ouvindo a própria respiração. Havia pássaros cantando do lado de fora. Sentou-se e se espreguiçou, sentindo os músculos formigarem.

Depois de sua rotina matinal, reuniu-se a outros hóspedes na área de convivência para o desjejum. A sala tinha cheiro de pães frescos e ovos. Chá Oolong estava sendo servido, assim como o potente chá Jokisen. Os Hikari eram uma família trabalhadora, com toda certeza. Serviam aos hóspedes com presteza e com o sorriso que apenas aqueles que amam a profissão que tem conseguem dar a outra pessoa.

Asami era uma das que estavam no serviço de café da manhã. Recebeu Toshiro com um sorriso agradável e o escoltou até uma mesa, onde serviu-lhe chá. Em seguida, serviu-lhe uma bandeja contendo o desjejum. Arroz, omelete, sopa de miso e pães frescos.

Toshiro já havia começado a comer quando o homem sentou-se do seu lado. Toshiro sentiu o cheiro desagradável do homem, que como ele, fedia a sangue. Mas o cheiro forte de cigarros emamava das vestes do homem e atrapalhava-lhe o apetite. O homem era magro, talvez até demais, e tinha olhos muito redondos. Não tinha barba, mas um bigode ralo enfeitava-lhe o rosto. Falou com a voz desafinada que o Hitokiri já conhecia.

-"Bom trabalho ontem a noite. Porém, os lobos estão atiçados. Mantenha a discrição por alguns dias, logo teremos trabalho pra você."



¹- Fonte de águas termais naturais, muito comuns no japão.

²- Espécia de "cama" japonesa. Composta por um colchão, um edredom e almofadas. Hoje em dia usa-se poliéster para o revestimento e pequenas esferas plásticas como isolante, mas na epoca utilizava-se tecidos de algodão e palha de feijão como elemento isolante.

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