quinta-feira, 28 de maio de 2020

A menina que Dança - 07

Como uma geisha, muito do trabalho de Suzuka era ouvir e confortar. Todas as noites, na casa de chá, ouvia uma nova história de perda, dor, sofrimento. A jovem maiko tinha como principal dever trazer luz aquelas pessoas que estavam presas em locais escuros, e permitir, mesmo que por apenas uma noite, que elas pudessem sorrir. Aliviar o fardo que curvava os ombros cansados e aproveitar a noite, com boa bebida, boa música, e boa companhia.

Até então, Suzuka sabia que viviam tempos difíceis graças a quantidade de tragédias pessoais que ouvia toda noite. E a gravidade das histórias também havia saltado. Mas até então, Suzuka era uma espectadora. Assistia o mais trágico espetáculo da história de seu país, sem até então ser afetada por ele.

Porém, naquela noite, o Bakumatsu se fez real. O caos de balas e espadas, as convulsões de morte do xogunato finamente alcançaram a geisha, e nela deixaram sua marca. Memórias gravadas a ferro no coração de uma jovem de apenas dezenove anos. Um lago de sangue no caminho para o trabalho. Um pedido de ajuda de um moribundo. Os olhos rigorosos de um matador. O último suspiro de uma pessoa jovem. Sangue voando. Risadas maliciosas de um monstro. Violência no seu corpo. A salvação pelas mãos de um assassino.

A era das trevas havia lhe alcançado e cravado suas presas profundamente. E Suzuka Ohgo carregaria com ela essas cicatrizes pro resto da vida.

Pensou em Gensai e nas palavras que ele lhe disse. E orou em seu íntimo, que ele tivesse razão, e a nova era chegasse logo.

Com o espírito quebrado, a Geisha se recompôs e caminhou de volta pra casa. Não teria condições de honrar com seu trabalho hoje. Ela era o conforto de almas perdidas, mas hoje, era o coração dela que precisava ser confortado.

Quando chegou em casa, pôs a água do banho para esquentar, e serviu a si mesma uma pequena dose de saquê. Uma pequena fuga, para uma grande dor.

Quando a água ficou quente, desatou o nó de sua obi e deixou a yukata cair, expondo a pele branca e deixando-a se arrepiar com o frio súbito.

-"boa menina"

Se ajoelhou. Cobriu-se novamente. Entrou na banheira coberta com suas roupas. Tinha o rosto quente de lágrimas. Lembrou-se do membro sujo do homem, ereto e pulsante, a sua frente. O cheiro podre que lhe enojava. As risadas maliciosas. A dor da mão agarrando seus cabelos.

Lembrou-se de fechar os olhos e abrir a boca. Aquele segundo de expectativa onde a sua violência foi real. Onde ainda não estava salva. Virou-se subitamente para não sujar a banheira, pegando o balde que usava para recolher os dejetos e vomitou dentro dele.

Colocou o balde tropegamente no chão e afundou até os ombros na banheira.

A imagem de Gensai salvando-lhe acabou por lhe trazer paz. Isso era possível? Era possível encontrar paz e tranquilidade na imagem de alguém sendo morto? Isso fazia dela uma má pessoa?

E Gensai? Quem era Kawakami Gensai? Um monstro assassino ou um paladino da justiça? Havia visto duas faces do mesmo homem em uma noite. A espada impiedosa e a lâmina da salvação. Os olhos rigorosos de ódio e a voz terna e triste. O que deveria pensar dele? Deveria amá-lo? Ou temê-lo? Apenas lhe era grata.

Deitou-se nua em seu futon¹ e não percebeu quando adormeceu, para sonhar com cerejeiras e andorinhas.


¹- "cama" japonesa. Um colchão fino, fácil de enrolar e guardar.

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